PALIMPSESTO s.m. (1842 cf. AGC) papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro duplo p. aquele que foi raspado duas vezes ETIM gr. Palímpsēstos, os, on ‘id.’ pelo lat. Palimpsēstus, i; ver pali(n-); f. hist. 1842, palimpsestes, 1877, palimpsésto, 1885, palimpsesto.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

PALIMPSESTO (CODEX RESCRIPTUS)

«Suporte material de um texto que recebeu a escrita por mais do que uma vez. Se bem que houvesse este hábito de reaproveitamento do suporte já na Antiguidade (o palimpsesto começou por ser um papiro corrigido), foi sobretudo na Idade Média, nos séculos VII a IX, com a escassez e o custo elevado do pergaminho, que se passaram a raspar as letras já escritas na pele e não mais desejadas, ou a eliminar toda a tinta por meio de um complexo método de lavagem que envolvia leite, esponja, farinha ou cal e pedra pomes. Entre as causas que motivavam a eliminação de um texto de forma a reutilizar o seu suporte contam-se a falta de pertinência do conteúdo, a ininteligibilidade da língua ou da grafia em que estava escrito, a progressiva deterioração do suporte e a existência de uma cópia equivalente. No Renascimento, com o culto do mundo Antigo, e depois no século XVII, com o nascimento dos estudos paleográficos, começaram a desenvolver-se procedimentos para reavivar no palimpsesto o texto desaparecido (scriptio inferior). Os procedimentos começaram por ser químicos, mas revelaram-se destrutivos para a materialidade do suporte, pelo que deram lugar, hoje em dia, aos procedimentos ópticos.»

Rita Marquilhas, in E-Dicionário de Termos Literários de Carlos Ceia.

«UM PALIMPSESTO é, literalmente, um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para a substituir por outra, mas no qual esta operação não apagou irremediavelmente o texto primitivo, de modo que podemos ler aí o antigo sob o novo, como que por transparência. Isto mostra, de modo figurativo, que um texto pode sempre esconder outro, mas que raramente o oculta completamente, e que na maioria das vezes se presta a uma dupla leitura na qual se sobrepõem, pelo menos, o hipertexto e o seu hipotexto – é o caso do Ulisses de Joyce e da Odisseia de Homero. Entendo aqui por hipertextos todas as obras derivadas de uma obra anterior, por transformação, como na paródia, ou por imitação, como no pasticho. Mas o pasticho e a paródia são apenas as manifestações mais visíveis e ao mesmo tempo menores dessa hipertextualidade, ou literatura em segundo grau [em segunda mão?], que se escreve através da leitura, e cujo lugar e acção no campo literário – e até para além dele – são geralmente, e

lamentavelmente, mal conhecidos. Tento explorar aqui esse território. Um texto pode sempre ler outro, e assim por diante, até ao fim dos textos. Este não escapa à regra: expõe-a e expõe-se a ela. Lerá melhor quem ler por último.»

Paratexto in Gérard Genette, Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris: Éd. du Seuil, 1982.

 

Palimpsesto é uma editora independente fundada em Lisboa em 2007.

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